quinta-feira, 11 de novembro de 2010

As palavras podem ser alimento para a alma

Porque aprecio muito o trabalho de João Negreiros, aqui deixo um dos seus poemas.



"moro em ti que tem cidades que cheguem" - Prémio Nuno Júdice 2009


moro em ti que tem cidades que cheguem



sabe-me a sonho o teu colar

a salto o teu sofrer

encosta-te no momento do repouso que eu levo injúrias dedicadas a

[quem te quer mal

deixa-os para mim que avio-os como receitas de um xarope amargo

[que lhes tira a tosse

e lanço-me aos seus encontros

distribuo para cada o de cada um aliviando-te de inimigos

fazendo-te amigos fortes e feitos à minha força

quem não te quiser não presta

nem para cola

nem para adubo

nem para lixo

os cães vadios recusam teus inimigos

as ratazanas de pior reputação recusam teus inimigos

e as baratas rastejam para fora no tempo em que as tainhas nadam

[p’ra longe

é obrigatório que todos te queiram p’ra que a concorrência me lembre

[tuas virtudes

assim dou-te o valor que quero e o valor que me obrigam

amando-te por querer e por obrigação

e deste ajuntamento construo o protótipo aerodinâmico inter-galáctico

[do amante perfeito

faço-me à semelhança do que nunca houve e aventuro-me por ti

[dando-te a essência do que conheço

e agora vendo bem

vendo por dentro

comparando com a inveja de todos

acho-te magnífica

tens salões que não acabam

mansões forradas a folha de ouro

gastaram os elefantes no marfim dos teus soalhos de selvas extintas

e és rara porque és única

todas as mulheres morreram para te prestar vassalagem

para nascerem outra coisa mais tarde porque esta já está ocupada

ser mulher já tem dona

és tu

as outras morreram na tentativa

os outros morrem por ser eu

e somos o início

fechamo-nos entre aspas e inventamos palavras novas que as que

[estavam não te diziam

dá a mão

não tenhas medo

dá a mãozinha

e já agora tudo o resto que não preciso de mais nada

tu chegas-me

moro em ti que tem cidades que cheguem

quando te falo grito o eco da praça interior

tu ouves-me pelos órgãos internos e respondes-me pela mobília de

[madeiras nobres que me sorri e me aceita como uma gaveta à procura



[de documentos

estás bem sozinha aí fora

estou bem sozinho aqui dentro

e vemo-nos nos dias em que o ouvido interno encontra o equilíbrio na

[voz dos pássaros



in "a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros - (poesia) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência

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