quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lembranças desconexas ou apontamentos de memórias vividas por outros...

A história dele começa há 77 anos atrás. Num Portugal que nada tem a ver com o nosso.
Em plena terceira década do século XX, nasceu a quinta de um total de sete crianças, numa casa de pedra, escura e fria, como tantas outras, em inóspita aldeia beirã, onde a rudeza da sobrevivência massificou as existências. As crianças cresciam aos molhos e por si, um pouco por todo o lado.
Pequeno era quando foi instruído no sentido de guardar o rebanho de cabras. Deveria passar noites ao relento, defendendo os animais dos possíveis lobos que os quisessem atacar... Defendê-los como? Com o corpo, provavelmente, ou como calhasse. Improvisação é uma sábia ferramenta que tão nobremente cultivamos em espírito luso neste rectângulo ibérico...
Amava a mãe que pouco cuidou dele por impossibilidade logística. Seria a irmã, Celeste, quem dele trataria, cuidando do seu crescimento e protegendo-o dos inúmeros perigos. Mesmo assim, de tão rebelde e chorão, conseguiu Joaquim escapar-se do colo fraternal para se precipitar na fonte de cima, cheia de água, sem que soubesse sequer nadar... O embate frontal com a testa na pedra valeu-lhe um esguicho sanguíneo e uma cicatriz que se mantém até hoje, na pele desgastada pelos anos buliçosos...

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